ASSISTÊNCIA AO ÓBITO NO DOMICÍLIO

Um dos assuntos mais difíceis de serem abordados durante a internação domiciliar de pacientes sem chances de cura é o “óbito no domicílio”. Paradoxalmente, existe uma gama enorme de sentimentos negativos em relação à possibilidade da morte de um ente querido,ou de um paciente, ocorrer em sua própria casa. Estes sentimentos partem tanto dos familiares quanto da equipe de assistência.

E de fato não é completamente sem razão temer que alguém faleça longe da estrutura que nós próprios nomeamos como a responsável por isso: o hospital. A “hospitalização” dos nossos doentes, ou de nossos entes queridos, é entendida hoje como a forma mais segura de fornecer conforto e cuidado mesmo para quem já não se beneficiará mais de tratamentos complexos e especializados.

Muito embora tenhamos certeza que isto não é necessariamente verdadeiro, acabamos por criar barreiras para condução de um acontecimento que, se por um lado não pode ser negligenciado quanto à intensidade de quem o vivencia, por outro, não pode ser encarado como antinatural. Morrer em casa já foi o natural para quem chega ao fim de sua existência. Por que não o é mais?

Recentemente o Hospital dos Servidores em São Paulo, através do seu serviço de internação domiciliar e cuidados paliativos, publicaram uma série de depoimentos de parentes de doentes que faleceram em casa. Lendo estes depoimentos, podemos concluir que a maioria vivenciou a experiência como sofrimento, devido à proximidade com a morte de alguém muito querido, tanto quanto realização. Realização de estar presente no momento mais crucial, por ter feito tudo o que estava ao alcance e por proporcionar a chance para quem chega ao seu final de fazê-lo no ambiente em que ele viveu e se relacionou. E o sentimento de realização acabou por gerar mais conforto para todos, ajudando inclusive a dar um significado singular à própria morte.

Portanto, a experiência do óbito no domicílio é muito mais realização do que sofrimento. Cabe então às equipes de internação domiciliar e paliativistas cumprir seu papel, fornecendo suporte material e técnico, apoio emocional e incentivo para doentes e famílias que manifestarem desejo pela assistência ao óbito na própria casa.



Dra. Mabel Araújo Andrade

Diretora Clínica da SAMEDLAR

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